Prós estudantes de Cronologia: feito dia 2 de Janeiro (partes 1, 2, 3, 6), dia 2 de Fevereiro (parte 5) e dias 7 e 30 de Janeiro, 2 e 7 de Fevereiro (parte 4).
Cruzeiro humano
I
Repentino vento
Por Deus - agora vejo
(e como!) a realidade
obscura desta sociedade
de disfarce e de desejo
permanentes. Não pestanejo,
tal a límpida claridade
com que esta dorida atrocidade
seu impacto emana. Velejo
nestes mares revoltos
de multidão desprovida
de compreensão, soltos
das amarras os nós.
Mais valia reprimida,
esta visão... Parto veloz.
II
Mar de gente
Lá longe, no alto mar, uma miríade
de gente nada em turbilhão. Que susto!
Querem chegar à costa, a todo o custo.
As braçadas que dão são uma tríade
de esforço, de vontade e de corrente.
Isto num rio provocaria uma enchente.
Uns elegantes, outros mais rebeldes
na forma como o braço encontra a água,
e mais diversidade ainda nos debaldes
percursos à marítima superfície.
Como ninguém sabe a direcção, nadam à toa.
Uns quantos apostam numa, até à calvície;
outros vão mudando, com medo do fracasso;
outros nadam frenéticos, aos círculos doentios;
outros ainda deixam-se boiar, de cansaço.
Há ainda os que, nos barcos em madeira,
vão ao sabor do vento, em lentos rodopios,
pois lhes parece indiferente a maneira
como se avança - sendo uma questão de sorte,
que diferença fará ir para Sul ou para Norte?
O dilema é só o de esbracejar mais ou menos.
Assim, recostam-se nas barcas solitárias
sem fé nem alento, autênticos párias
dos que lhes roçam o casco, sejam hostis ou amenos.
III
Mergulho primeiro
Posto isto, mergulhei,
aventureiro,
qual cinzas sopradas
de um cinzeiro.
Lá, depressa encontrei
o balanço
das ondas azuladas
aquém do nevoeiro.
Lá encontrei também
a inquietação,
não soube nadar bem,
fui um inapto ganso.
Não pude mais regressar,
ditou o vento.
O barco velejou-se, num afastar.
O vento soprou-me um não.
Fiquei a sós com o mar,
e as pessoas
passaram, sem dar por mim, a nadar.
Dei por mim em isolamento.
IV
Gente do mar
Boiei em desfazamento,
chapinhando à tona da água,
até me virem arrancar a rima.
Braços, corpos, forças às dezenas
tomaram-me por obstáculo fútil
e o verso fez-se supérfluo,
subaquático e adjacente.
Esbracejos, dores e soluços
sucederam-se em sobrevivência.
Fora de um meio ambiente,
adensei-me selva de estragos
e emoções profundas. Turbulentas,
as energias camufladas, em impacto,
esvaíam-se sem braço pela correnteza.
Em encontros incessantes de alto-mar,
o meu corpo atordoado pelo marasmo
servia para propulsionar os peregrinos
em multidão e fervor de natação.
Muitos, possantes e sedentos
de avanço no vasto mar atlético.
Grande vaga humana em pleno rebentamento.
Outros, em ligeira emersão,
deixavam-se arrastar sem grande esforço,
condicionados pelo mundo que eram todos,
abstinentes de medir mares e vizinhos,
sujeitando-se a nadar em vaga prancha
de um surf social e cativante
sempre que em comunhão nela se erguiam.
Afastei-me de uns a nado convulso,
de outros dei continuidade ao afastar-me.
Seguiam todos numa migração sem rumo
que eu me dediquei em esforço a evitar.
Reflexos de um pouco confortável oceano.
Estremeci o frio, espaireci a pausa,
e de noite brilhei a lua calada.
Esporádicos encontros doridos
continuaram mar adentro, passageiros,
transportando consigo a escotilha
de ver o baço por um navio inútil.
A pouco leme, as órbitas sucederam-se
em reconhecimento astral diurno
feito de guinadas pouco mundanas.
De dia, a troços, fui inventando margens.
Aos poucos, o chapinhar transformou-se
e aprendeu o desvio a meia-distância.
Também a visão se acostumou
e reconheceu, entre membros ocupados,
contornos distintos, por vezes semelhantes,
que não os de peixes brutos de cardume.
Combatente sem escudo, remédio ou antídoto,
intoxiquei-me mortiço pelas águas,
em viagem, aproximando-me dos postos
de desafios escondidos e tendo por bagagem
a pronta ausência ao mais pequeno salpico
da água de outrém, deixando-me para trás
em longas quilometragens de fôlego a recuperar.
Nesse passeio contornado, inundei-me
de compreensão às camadas do que via,
ao que me engasguei de pulmão seco,
com a trémula consciência do meu ser
face à segura consistência dos compostos
líquidos, alheios e vizinhos.
Passei a desviar-me do meu próprio nado.
Contudo, tentei que não se afogasse a luta.
Motivado por estar vivo, fui boiando,
por vezes nadando. Porém não mais a direcção
se me avizinhou em companhia,
e passaram-se várias batalhas inconclusas
em que não fiz parte de um sentido que durasse.
Assim me dei às ondas - não me dando à gente do mar.
V
Solitário mar
ou
Rising de(e)cay
Suave e terna voz invísivel
que me embala insuficiente
de um mastro. Pouco plausível,
o navio sem quilha, assente
no mar que se aterra poluição
no sorvido naufrágio da graça
que brinca vaga, na imaginação.
Navego em carícia pela massa
disforme deste cruzeiro maciço,
apalpando a dor terna e suave
da súplica, implícito e castiço
sentimento de maré em enclave.
Todo este mar de imprecisa posição,
sem mapas, é a inexistente praça
de uma cidade à beira-mar sem razão,
fundada e afundada em desgraça.
E os mapas que não há em incrível
redemoinho desenham um descrente
caminho no topo de um pouco crível
mastro. Trepo, decadência ascendente.
VI
Mergulho último
Senti crescer uma forte caimbrã.
Senti-me fundo num mar em câmara lenta.
Afoguei-me lento num mar sem fundo.
Doí-me. Chamei vão pela mamã.